QUANDO A DOR NOS OBRIGA A (AR)RISCAR
Olhe para suas tatuagens.
Quantas nasceram no meio do caos? Em momentos nos quais tudo que você precisava era sentir?
Você pode não ter sido intencional ao escolher transformar dor emocional em tatuagem, mas seu cérebro entendeu o recado. Canalizou e deu forma física àquilo. Enviou sinapses que te desviaram daquele sentimento, pelo menos momentaneamente.
Pode não ter te curado, mas mostrou que cicatrizar era possível.
QUER TAPA, TOMA TAPA
A agulha que te tatua não busca fazer carinho, pelo contrário. Ela é a ponta fria de um ritual quase sadomasoquista. Com uma precisão e constância inquietantes, ela penetra a pele entre 1 a 2,5 mm, atravessando a epiderme. Cerca de 50 a 150 golpes por segundo, não apenas penetra, como rasga, insiste, invade.
Invade a intimidade do seu corpo, como quem invade a intimidade da sua casa sem convite.
E não para por aí.
Torna-se uma ferida aberta que, como qualquer outra, causa desconforto e exige cuidados. Agora, há um corpo estranho dentro do seu. Um corpo estranho que, em breve, vai cicatrizar e se tornar parte de você por toda a efemeridade da vida.
QUANDO EM DOR, TATUE
A dor, mais que incômodo, é também combustível. E, na tatuagem, ela não é inimiga. É ritual e diálogo. Com ela, percebemos uma verdade desconfortável: para existir plenamente é preciso sentir, doer, sangrar.
Muitas vezes, buscamos essa dor quando o peito — ou a mente — já não se sustenta, como um pacto silencioso entre o corpo que sofre e a mente que precisa se libertar.
Por muito tempo, o corpo tatuado foi encarado como problemático e, muitas vezes, patologizado por psiquiatras que associavam as tatuagens a comportamentos desviantes, transtornos psicológicos e baixa autoestima. Porém, como explica Chandler Gates em seu artigo “Tattoos as a Coping Mechanism”, essa perspectiva vem se transformando e caminhando para um olhar mais empático e sensível da experiência humana: a tatuagem já não é vista apenas como sintoma de psicopatologia, mas como um sinal de cura, um gesto de autocuidado.
A dor da tatuagem, nesse contexto, pode funcionar como mecanismo de enfrentamento para pessoas que lidam com sofrimento emocional e psicológico. Como se fosse um “reset” do sistema nervoso, deslocando a atenção da mente sobrecarregada para a sensação física provocada pela agulha na pele. E para além disso, também proporciona uma sensação de empoderamento e retomada de controle sobre o próprio corpo, que surge como recompensa ao atravessar e superar a dor.
A DOR E A DELÍCIA
Como um sadomasoquismo delicado e consentido, o ato de tatuar também provoca outra sensação: o prazer. Um prazer que nasce da superação da dor e da sensação de controle sobre o próprio corpo e mente, como um exercício de poder sobre si mesmo.
A dor é, então, desejada, aguardada e ritualizada.
DE SER QUEM VOCÊ É
Com isso e para além disso, podemos enxergar a tatuagem também como um rito de passagem, no qual a cicatriz que fica não é apenas estética, mas uma narrativa do que foi vivido e - espera-se que - superado. Ao reunir essas narrativas, o corpo se revela como um texto. Um corpo tatuado conta a história de quem o suporta e traduz não só identidade e pertencimento, mas também vivências e experiências íntimas, únicas, agradáveis ou não.
A DOR DA TATUAGEM DÁ FORMA À DOR QUE NÃO SE VÊ, MAS QUE SE SENTE, MUITO. CRIA UMA PONTE ENTRE O INTERIOR E O EXTERIOR, ENTRE O SOFRIMENTO E A FORÇA QUE BROTA DELE.
PRAIA DE ARTISTA
NOT SO CLEAN, GIRL!
No mundo das modificações corporais, tatuagem é o de menos. Pra falar sobre dor e cicatriz em sua forma mais crua, trago aqui as escarificações do Jafa Dilambas:
Jafa Dilambas é artista corporal e trabalha com tatuagem, escarificações e suspensões, além de ser psicólogo graduado pela USP. Em sua bio do Instagram, diz transformar a dor em amor. É, atualmente, um dos nomes mais conhecidos do país quando o assunto é modificações extremas.
Aqui, a marca não se faz pela tinta, mas pelo corte. Cada linha aberta na pele é uma escolha consciente de enfrentar a dor como forma de expressão e libertação.
Pra conhecer mais do trabalho dele, acesse aqui.
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