EM ODE À ABSTRAÇÃO
DO CAOS AO RISCO
É TATUAGEM, NÃO TESE
Até hoje, nós atribuímos e validamos significados às nossas tatuagens. Muitos deles para além do que se vê (figurativamente falando): há uma significação sentimental e pessoal.
Esse esforço de explicar cada traço, símbolo ou palavra vem de uma tentativa de dar sentido à própria existência. É quase como se, ao registrar algo no corpo, fosse preciso justificar a sua permanência. Como se o corpo tivesse que contar uma história linear, coesa, didática e lotada de sentido.
Mas e quando o sentido e o significado são completamente subjetivos, o que se conta? Ou quando não há sentido nem significado, como se justifica?
TENHO TANTO PRA LHE FALAR…
Assim como na arte, há um espaço na tatuagem que não é feita pra ser interpretada, mas sentida. Deleuze já dizia que a arte não comunica, ela expressa. E o que se expressa não precisa obedecer à estrutura de um discurso ou narrativa. Pode ser um ruído, uma quebra, um silêncio.
MAS COM PALAVRAS NÃO SEI DIZER
A tatuagem abstrata, nesse contexto, não é vazia de significado. Ela atua, muitas vezes, como linguagem silenciosa da psique, permitindo que o tatuado externalize emoções complexas, fragmentadas ou até contraditórias, sem a necessidade de traduzir essas experiências em palavras ou narrativas coerentes, podendo funcionar como uma forma de autorregulação emocional diante do caos interno e externo.
Esse corpo tatuado se torna, então, uma espécie de diário íntimo e não linear, onde o insconsciente se expressa através das linhas, formas e manchas que não necessariamente precisam significar algo fixo. Essas marcas carregam uma potência afetiva profunda e pessoal, embora não carreguem um significado universal.
É o instinto na luta contra o racional, onde a subjetividade se impõe sem a necessidade de defesa.
MAS TÁ, O QUE O CY TEM A VER COM AS CALÇAS?
Vivemos atualmente num mundo frágil e polarizado, onde tudo parece prestes a mudar a qualquer momento, como já vimos acontecer com a pandemia do coronavírus. Estamos constantemente expostos a um fluxo denso de informações - reais ou não, necessárias ou não, importantes ou não. Diante disso, escolher o que absorver e o que deixar passar tem se tornado cada vez mais essencial na luta entre a loucura e a sanidade.
Nesse cenário cada vez mais saturado e instável, a abstração surge como resposta à exaustão da lógica. Abstrair, no sentido real da palavra, nada mais é do que isolar e simplificar - e assim deixar. É um mecanismo de defesa.
Frente à dura realidade, tatuar sem um “porquê” claro pode ser um gesto de resistência contra o mundo que exige respostas e explicações o tempo todo. Nem tudo precisa fazer sentido.
CAOS NOSSO DE CADA DIA
Historicamente, a arte abstrata antecedeu ou procedeu grandes acontecimentos na história, como: o expressionismo abstrato - que veio após a segunda guerra mundial - e o cubismo, que antecedeu a primeira guerra mundial, época de grandes inovações tecnológicas e tensões políticas.
Sempre que o real se torna denso e, muitas vezes, insuportável, o abstrato oferece um caminho de reorganização do caos.
E a tatuagem, enquanto expressão artística do corpo, segue esse mesmo fluxo histórico, revelando tempo e espaço, angústias e desejos de cada época.
VAMOS TODOS NÃO JUSTIFICAR
Hoje, quem opta pelo abstrato expressa a vontade de ser sem precisar justificar e acolhe o incompleto, o não dito, o intuitivo, o instintivo. O corpo tatuado se torna então um espaço de elaboração subjetiva da realidade - própria, coletiva, ou do mundo.
VAMOS TODOS NÃO ENTENDER
Como disse Clarice Lispector, “entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras.”
O abstrato nos oferece exatamente isso: a liberdade de sentir sem precisar traduzir e a liberdade de ser sem precisar justificar.
É a recusa ao excesso e à obrigação de definição.
PRAIA DE ARTISTA
NOT SO CLEAN, GIRL!
Abstract is my passion e eu poderia lotar essa seção tatuagens e tatuadores que eu amo.
É exatamente isso que vou fazer - mas não espere ver suminagashi por aqui. O campo gráfico - como diz uma querida amiga minha -, é muito amplo. E o abstrato também é.
Manchas, linhas, formas, padrões, texturas. Podem ser ornamentais, podem ser agressivas, delicadas, robustas, discretas. O que importa aqui é o dialógo com o corpo, sem a obrigação de fazer sentido para ninguém além de quem carrega.









Essa liberdade muitas vezes foge do que a maioria imagina quando se fala em tatuagem. Não é sobre uma simetria perfeita ou imagens e figuras facilmente reconhecíveis. É sobre o intuitivo e o instintivo. Sobre o não dito, o não justificável, o que não se explica.
Agora, por favor:
ME DEIXE VENDER MEU PEIXE!
Meu trabalho com tatuagem começou lá no fim de 2018 - inicialmente com a técnica de handpoke - de forma intuitiva e sem saber direito onde isso poderia me levar.
Sempre conversei com o abstrato e, desde o início, essa foi a principal linguagem do meu trabalho enquanto tatuador.






Com o tempo - e com a troca do handpoke pra máquina -, minhas tatuagens foram mudando, seja no traço, na composição, ou no encaixe no corpo.
E eu, que gosto de pensar demais, remoer as coisas e às vezes teorizar mentalmente, hoje percebo que cada fase refletiu um pouco do momento que eu vivia, acompanhando minhas próprias mudanças - os lugares onde vivi, as pessoas ao meu redor, as experiências que tive.
E sempre vai ser assim.
Estamos, o tempo todo, fazendo o exercício de reconhecer - nós mesmos e o mundo. Então é justo que a arte acompanhe e evolua.






Mas deixo pra aprofundar melhor esse tema, talvez, em uma outra edição dessa newsletter.
Por hora, é isso!
ONDE TE TATUO?
BELO HORIZONTE, MG - junho e julho
SÃO PAULO, SP - 06 a 12/08
BRASÍLIA, DF - 12 a 16/08
SALVADOR, BA - 02 a 09/09
RECIFE, PE - 10 a 14/09



